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Construção do Morumbi: “Se é para sonhar, que seja grande!”

Por Publicado Novembro 04, 2010

Olá amigos, minha coluna de hoje será uma reprise (rs).

Motivado pelo artigo sobre nosso amigo historiador do SPFC, Michael Serra, acho oportuno publicar novamente a coluna que escrevi especialmente para o Daniel Perrone publicou no Blog do Torcedor que ele tem no Globo.com.

Até para ajudar a tirar essa mania pequena de quem não tem apreço por leitura e muito menos por história, que outros torcedores insistem em dizer mentiras e inverdades sobre a nossa história. Por isso o torcedor tricolor precisa saber mais e mais sobre a verdadeira história do nosso Amado Clube Brasileiro.

Até para também reverenciar ao Dr Laudo Natel que recentemente lançou a autobiografia "Laudo Natel: Um Bandeirante", editado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e escrito por Ricardo Viveiros. E um capitulo especialíssimo sobre a construção do Morumbi. Fiquei lisonjeado ao ter esse artigo como uma das fontes do livro e citado por esse dirigente que é ídolo nos meios diretivos do clube e do futebol como um todo.

 

Ótima leitura e garanta ótimas risadas com os amigos dos outros clubes, mostrando, além do seu amor, conhecimento sobre o MAIOR DO MUNDO!

 

“Se é para sonhar, que seja grande!”
 

 

Acredito que muitos gostariam de saber quando, como e de onde surgiu a idéia para construir o estádio do Morumbi. Pesquisei, liguei, mandei e-mails e o material está pronto! Talvez uma reunião inédita de informações sobre a construção do estádio do Cícero Pompeu de Toledo. Agradecimento especial ao Michael Serra, historiador do SPFC que confirmou e desmentiu detalhes e datas importantes.

 

Após a sua re-fundação em 1935 o SPFC, que sempre pensou em ter seu estádio próprio, usava improvisadamente o Campo da Antarctica Paulista, na Moóca, quando da fusão com o Estudantes em 1938 comprova o desejo do clube desde então. E em 1942 ele se associou ao clube alemão que alugava o Canindé. Só em 1944 ele comprou o Canindé. O sonho do grande estádio chegou a ser passado para o papel, num anteprojeto, mas foi atrapalhado pela Prefeitura: o traçado da Marginal Tietê cortaria o terreno do São Paulo e o anteprojeto teve que ser abandonado. E segundo a Revista Tricolor numero 3, em setembro de 1949 o clube volta a sonhar com um grande estádio. Desse momento em diante dirigentes e membros importantes começam a procurar por um terreno onde o clube poderia construir o tão desejado estádio.

 

Em meio as discussões sobre a construção do estádio, segundo pude apurar com quem conhece a história, um dos dirigentes da época proferiu uma frase que ficou marcada; “Se é para sonhar que seja grande!”. O primeiro terreno que interessou aos dirigentes são-paulinos foi o do Ibirapuera, onde hoje está o parque do Ibirapuera. Mas o então vereador Jânio Quadros lutou para que o terreno não fosse vendido, muito menos que fizessem ali um estádio.

 

Depois foi verificado que havia um terreno à margem do rio Pinheiros que pertencia a Light (antiga empresa de fornecimento de energia elétrica da capital de SP e parte do interior). Ao verificar a metragem do terreno, constatou-se que ele seria pequeno para o projeto desejado pelo clube.

 

Mais precisamente em abril de 52 que o clube organizou e criou a Comissão Pró-estádio. Com isso acontecia uma divisão administrativa do SPFC, uma que cuidaria do clube e outro da obra do estádio. Como presidente dessa comissão o ex-jogador e agora dirigente, Cícero Pompeu de Toledo.  Em agosto de 52 a Imobiliária Aricanduva doa ao SPFC parte do terreno para a construção do estádio. Transação lícita e registrada em cartório.

 

(nota do blogueiro: Como a região do Morumbi era inabitada naquela época, era de total interesse da Imobiliária Aricanduva doar o terreno para um clube de futebol. A intenção era desenvolver a região, valorizando seus terrenos)

 

No final de 1952 três empreiteiras apresentaram seus projetos para a construção do estádio. Duas brasileiras e uma soviética. O Clube acerta com a Vilanova Artigas e apresenta a maquete do Estádio para o público e imprensa na sua sede social de gala na Av. Ipiranga. A maquete foi confeccionada pela empresa Maquette Zanini Ltda.

 

Consta ainda que o projeto original contava com estádio de futebol para 120 mil pessoas e com quatro anéis, e não três. Teríamos um ginásio ao “estilo Morumbizinho” com o objetivo de receber a prática de vários esportes; basquete, vôlei, hóquei e ciclismo. O ginásio teria a capacidade para 20 mil pessoas. A praça de atletismo e parque aquático com três piscinas, sendo uma olímpica, os dois espaços com arquibancadas para 5 mil pessoas; diversas quadras poliesportivas e sede social. Esse foi o projeto inicial.

 

No ano seguinte, 1953 o clube acerta com a Companhia Antártica Paulista um contrato de concessão de direitos exclusivos para a venda de produtos dentro do estádio com a Companhia Antárctica Paulista. O valor acertador girava na casa de Cr$ 5.000.000,00, para uso por 10 anos, a partir da inauguração, com possibilidade de prorrogação por mais 5 anos. O clube inicia também as negociações para a propaganda no estádio e a venda de souvenires para ajudar na construção. Nos mesmo período o SPFC recebeu inúmeras doações de sacos de cimento, além de doações em dinheiro de populares/torcedores. Eu particularmente tive conhecimento de que dois irmãos são-paulinos, moradores do Ipiranga levaram até o Morumbi, cada um em sua bicicleta, 2 sacos de cimento. História contada por uma das netas de um dos irmãos.

 

Em julho do mesmo ano inicia, e em dezembro termina a terraplanagem do terreno.

 

No ano de 1953 iniciam o estaqueamento e a construção das fundações do estádio com 144 tubulões pneumáticos. Cada um com capacidade de suportar uma carga para 700 toneladas e cerca de 3000 metros de estacas pré-moldadas de concreto armado, com suporte variável de 20 a 30 toneladas cada. Finalizada também a galeria de águas pluviais.

 

Em 1954 a Villanova acerta a transferência dos direitos de seu projeto ao SPFC, que, livre, procede algumas alterações, como a substituição das rampas à arquibancadas por bocas de acesso, fato que aumentou em 30% a capacidade do estádio.

 

No mesmo ano o São Paulo rompe o contrato e firma nova parceria agora com a Rádio Bandeirantes S/A para a venda das cativas do estádio. O produtor de rádio e TV, Oswaldo Molles é nomeado para ser o chefe da campanha publicitária.

 

Em fevereiro de 54 aconteceu um amistoso entre o Botafogo-RJ x SPFC. Na ocasião dizem que o então presidente da Comissão Pró-estádio, Cícero Pompeu de Toledo conversa com o presidente Getúlio Vargas para um empréstimo da Caixa Econômica Federal ao clube para ajudar no termino da construção do estádio no valor de Cr$ 35.000.000,00. O então presidente do Brasil recebe posteriormente Cícero Pompeu de Toledo no Palácio do Catete e inicia o processo para o empréstimo. Mas o valor solicitado e anunciado nunca chegou as mãos do SPFC. Esse fato nunca foi de fato comprovado.

 

Em abril de 1955 o SPFC vende para o Sr Wadih Saddi, conselheiro do clube, o Complexo Esportivo do Canindé pelo valor aproximado de Cr$ 12.000.000,00 com o objetivo de sanar as dívidas do clube. Parte do valor da venda foi direcionada para a construção do Morumbi. Portanto o SPFC continua no Canindé até 1957 quando o terreno e suas instalações foram revendidos à Portuguesa.

 

Em outubro o SPFC fecha contrato para a segunda fase das obras estruturais de 6 vãos de gigantes (espaços entre os tubulões de sustentação do estádio, mais 3 lances de cativas, vestiários, departamento médico, concentração, portões monumentais e bilheterias. Essa obras só foram iniciadas em 1956. E foi no final de janeiro de 56 que o Conselho Deliberativo escolheu o nome oficial do Estádio do Morumbi: Estádio Cícero Pompeu de Toledo. Outros 2 nomes foram discutidos para o estádio: Nove de Julho e dos Bandeirantes.

 

Em agosto do mesmo ano o clube inaugura o gramado, plantado com grama tipo Batatais sob orientação do Instituto Agronômico de Campinas. O gramado foi demarcado com as medidas FIFA por Vicente Feola. Festa e churrasco oferecidos à imprensa. No mesmo dia as primeiras traves redondas do Brasil também foram instaladas no campo do estádio.

 

Em setembro de 1957 finalizam o trabalho de fundações pneumáticas, ao custo aproximado de Cr$ 20.000.000,00.

 

No último dia do ano de 1957 o SPFC deixa o Canindé e a Portuguesa toma posse definitivamente.

 

Em março de 58 Cícero Pompeu de Toledo é condecorado pelo Conselho Deliberativo como Presidente de Honra do São Paulo Futebol Clube. Em abril de 58 Laudo Natel torna-se Presidente da Diretoria Executiva do SPFC e da nova Comissão Pró-Estádio

 

A Imobiliária Aricanduva faz uma nova doação em 59, de outro terreno anexo ao terreno onde o estádio é construído. Esse novo terreno tem um valor aproximado de Cr$ 200.000,00. Transação registrada também em cartório.

 

Inauguração da Pista de Atletismo em abril de 60. A obra foi supervisionada por Dietrich Gerner. Devido ao tamanho do campo de futebol delimitado a pista não teve metragem oficial.

 

Os primeiros bancos das numeradas e cativas vinham com o nome dos proprietários gravados. A Indústria de Parafusos Mapri S/A deu 400 mil unidades de parafusos em troca de 2 cadeiras cativas e 1 painel publicitário no muro do estádio. O muro que foi construído no entorno do estádio teve de início 47 espaços destinado a painéis publicitários de 2,5m x 6m.

 

Uma inauguração parcial do estádio aconteceu em 02/10/60 na partida contra o Sporting Lisboa, de Portugal (1×0 para o São Paulo: 1º gol do novo estádio de Arnaldo Poffo Garcia, o Peixinho). Na ocasião o estádio foi inaugurado com os seguintes setores: setor térreo completo, os trechos entre o G45 e o G3 (sentido horário) do anel intermediário e do superior. O estádio teve a benção do Cardeal Dom Carlos Carmelo de Vasconcelo Motta. O público do primeiro jogo foi de 56.448 pessoas.

 

Em outubro de 60 o SPFC realiza um novo jogo amistoso contra o Nacional de Montevidéu como segunda parte da festa de inauguração do estádio com jogo No jogo preliminar, o time de Veteranos do São Paulo x Seleção Paulista.

 

No final de outrubro de 1960 o título patrimonial do clube foi criado pelo Conselho Deliberativo com o custo de Cr$ 100.000,00, como forma de ajudar financeiramente ainda mais as obras do setor social.

 

Após um ano da inauguração parcial do estádio, o clube inaugurou o busto de Cícero Pompeu de Toledo.

 

Em março de 61 iniciam as obras do parque aquático do clube. Três meses depois iniciam-se a construção das torres de 43 metros de altura para a instalação da iluminação do estádio. As cabines primárias de transformação de 13.200 volts para 220 volts com transformadores de 150 Kva nas torres de iluminação e demais instalações elétricas.

 

Em setembro de 1961, os torcedores ganharam uma linha exclusiva para chegar ao estádio com a inauguração da linha de ônibus Largo de Pinheiros-Morumbi Estádio.

 

A Seleção Brasileira estréia no Morumbi disputando a Taça Oswaldo Cruz, Brasil 4 x 0 Paraguai.

 

No ano seguinte, em setembro de 1962 a inauguração do Parque Social com entrega das piscinas e vestiários. Nessa festa o então presidente Laudo Natel foi jogado em uma das  piscinas recém inauguradas. Com isso, a sede oficial do clube passa a ser o Estádio Cícero Pompeu de Toledo.

 

Em junho de 64 realizou-se a inauguração do busto de Laudo Natel nas dependências do estádio.

 

No final de 64 o SPFC faz um acordo para a compra do terreno (última parte) junto a Imobiliária Aricanduva que se seria efetuada em março de 1965.

 

Em abril do mesmo ano foi definido o contrato de construção das arquibancadas.

 

O Primeiro jogo noturno do Morumbi aconteceu no dia 22/02/68, com seu sistema de iluminação provisório. O jogo foi um amistoso entre São Paulo 3 x 3 Atlético Paranaense.

 

Em 68 o clube faz o lançamento do carnê promocional “A Grande Jogada é Construir o Paulistão”. Paulistão era um apelido pretendido para o Estádio Cícero Pompeu de Toledo. Foram vendidas 700.000 unidades do carnê. Um sucesso! Eram 6 séries distintas de mais 100.000 unidades cada vendidos a Cr$ 5,00. Desse montante somente 60 mil foram devolvidos.

 

Início da fase final de construção do estádio aconteceu em abril de 69 com prazo de entrega da obra era outubro de 1969.

 

O primeiro campeão no estádio foi o Santos quando se sagrou campeão paulista em 21/06/69.

 

Em 25/01/70 o clube realiza a inauguração definitiva do estádio numa partida que terminou empatada por 1×1 entre o SPFC contra o Porto, de Portugal. O público total do jogo foi de 107.069. Mas o público pagante foi de 59.924, ou seja, 47.145 pessoas eram convidados.

 

 

 



Essa foi a grande, épica, curiosa e verdadeira história da construção do Morumbi!

Lido 5521 vezes Última modificação em Segunda, 05 Janeiro 2015 20:53
Ricci Junior

Paulista, músico e produtor musical, jornalista, sócio/diretor da Uehbe Digital Marketing, frequentador de estádios desde 84.